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Sou feliz e nem sabia (Conto)
07Mar2010 21:29:20
Publicado por: Diana Balis

Sou feliz e nem sabia20080511_argentina_maes_na_praca_de_maio_1.jpg

 

Mulheres que me perdoem à incongruência nesse dia importante, aonde vão caladas?

Mas depois de ter vivido 6 horas presa num bar na lapa

Com chuva cobrindo os joelhos no primeiro andar

E sem serviço de cozinha e sem almoçar,

Com os garçons evitando a mesa, com três mulheres de perfis completamente diferentes no bar,

Posso declarar:

_ Sou feliz e nem sabia!

Porque mesmo vestida de lilás e com tênis roxo,

Levanto e pergunto em alto tom

Alguém está me vendo aqui?

_ O caldo veio estragado!

E a alagada rua da esquina e quiçá o planeta Terra todo,

Estávamos devidamente presos num bar.

Nessa altura, era um boteco qualquer e só não denuncio o nome,

Porque o Venturini estava lá dentro rindo de mim.

Chamei o garçom e perguntei:

_ Está me vendo aqui?

Conte quantos chopes?

(Obediente disse)- Cinco, pois é, quantas somos na mesa?

_ Três

_ Percebe que eu não estou brava?

Mas estou aqui há três horas e bebi apenas um chope?

Estou com fome, afinal, ontem fui a Búzios declamar poemas em homenagem a Mulher e hoje fiz evento para crianças e familiares de manhã, eu vim aqui para almoçar, já são 9 horas da noite!

E o caldo veio estragado! E o chop nem vem?

A chuva caia torrencialmente em cima do Rio de Janeiro, mas e a infra-estrutura?

- Sou de Brasília, não!

- Sou Mulher

A mesa da vizinhança já está solidária,

Já pediam por nós,

O Antonio, deve ser o dono do bar com certeza, é servido toda hora, e por vários garçons, conseguiu até uma empada de camarão!

Falei com ele:

- ÔÔ dono do bar, dá uma mãozinha aqui!

E o companheiro, já deitado sobre si mesmo, roncava feito o bebê que dormia sem nem saber sequer, o que estava acontecendo no Rio alagado. 

As manchetes do jornal Nacional já denunciaram as imagens.

Nós somos o BBB 11, dizia a garoto do lado, num bar sem comida e o chope aguado, com gelo de raízes da poluição na cidade.

As pessoas já colocavam os sacos plásticos nas pernas para sair.

_ E nós?

O Fernando (o garçom) pergunta, o que quer? Vou anotar.

-Água, guaraná, chopes e torradas para espantar a fome.

Vamos ficar, amanhã é domingo, não vamos nos molhar, uma hora a chuva vai embora...Ah!! Será?

Mas e se o bebê acordar mal humorado?

- Temos música ao vivo (comentava o homem do lado), um homem solitário tira a gaita e toca qualquer coisa para espantar o tédio.

A comida aparece, pão nem torrado e catchup. 

_ Coloca sal, para a minha pressão subir.

_ Felizes, todos comem a cortesia do bar.

Os garçons já de calças nos joelho, tentam tirar o lixo dos bueiros.  No meio do rio da rua, os ônibus conseguem passar e fazer ondas do mar.  As ruas alagadas e sem saída.

O homem de chapéu Panamá está em cima da mesa no andar de baixo, abismado, imóvel...

Um barco viria bem a calhar...

Mas e o amor na noite de sábado?

Ah!!

O amor será prosa de outro conto, porque esse se estendeu demais e a água já abaixou.

E vou correndo para casa antes que o Rio alague de novo,já é madrugada, o amor dorme e perdi a fome,

Mas o bom humor...

Ah!! Isso é que não perco não! Nem por decreto!

 

 

Diana alagada na lapa.

Rio de Janeiro, 7 de março de 2010.

 



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